
Publicado originalmente em IAEdPraxis: Caminhos Inteligentes para a Educação, em 9 de setembro de 2025
Há um fantasma que ronda o uso da Inteligência Artificial (de fato, há muitos, mas vamos simplificar): cada vez que enviamos um texto para que seja analisado, resumido, traduzido, avaliado, este material potencialmente se torna base para o treinamento da tecnologia.
Neste ponto, o “uso gratuito” revela seu custo. A cessão involuntária, em muitos casos inconsciente, de propriedade intelectual fornece os dados, o “novo petróleo” que as plataformas demandam.
Em muitos casos, simplesmente aceitamos esta barganha, motivados por necessidade prática, buscando não pensar muito sobre toda ambiguidade e opacidade associadas. Mas em outros, esta prática adquire um caráter antiético alarmante.
Trata-se do uso do ChatGPT e chatbots congêneres a partir de trabalhos que não nos pertencem. Seja ao revisar um artigo científico ainda não publicado ou ao corrigir um trabalho acadêmico, estamos nos deparando com um grande “não”, do ponto de vista ético. Como escrevi, juntamente com Rafael Sampaio e Ricardo Limongi em nosso “Diretrizes para o uso ético e responsável da Inteligência Artificial Generativa: um guia prático para pesquisadores”.
Como já dito e repetido, a IAG usa o input dos usuários para seu treinamento, algo que ocorre a cada interação. Diante de informações sensíveis, como artigos, frutos de pesquisas científicas, que utilizam dados inéditos e originais, estamos diante de um risco de vazamento de dados.
É uma contradição incômoda. Ao buscarmos facilitar nossa vida com a tecnologia, contribuímos para o treinamento de modelos proprietários, com conteúdo intelectual que não nos cabe entregar.
Contudo, existe uma alternativa cada vez mais factível diante do avanço da tecnologia se torna . Executar um modelo de IA localmente, isto é, em seu próprio computador pessoal, evitando enviar dados às nuvens e mantendo controle sobre como eles são processados, respeitando os direitos autorais.
O que acontece na máquina local, permanece na máquina local.
Para isso, o estado atual do hardware doméstico e o desenvolvimento de modelos abertos (open source) mais eficientes estão criando uma janela de oportunidade. Além da superação do dilema ético, esta mudança de posicionamento também acena para a autonomia digital, para a soberania de dados e para uma coerência ética no uso das tecnologias educacionais.




