Aviso: tive a ideia para este texto durante as últimas Olimpíadas. Mas como Paris 2024 passou e eu não escrevi o texto, ficou o dilema: esperar mais alguns anos ou publicar agora, mesmo não tendo o gancho da atualidade olímpica?
À primeira vista, o pentatlo moderno é um esporte que desafia a lógica. Unindo esgrima, natação, hipismo, tiro esportivo e corrida, parece uma colcha de retalhos sem sentido. O contexto histórico, porém, oferece a chave: a modalidade foi concebida por Pierre de Coubertin (o idealizador das Olimpíadas modernas) para simular as habilidades essenciais de um soldado ideal ou um mensageiro por trás das linhas inimigas no século XIX: esgrimir em duelos, atirar em alvos, nadar para cruzar rios, cavalgar para se deslocar e correr para fugir ou chegar a pé.

Foto: União Internacional de Pentatlo Moderno
Essa aparente disparidade entre as modalidades do pentatlo me fez pensar na minha própria profissão: a de professor universitário. Assim como o pentatleta, minha rotina profissional envolve atividades tão distintas quanto as de um atleta na água ou em cima de um cavalo. Essa multiplicidade deriva, em grande parte, do chamado “tripé” sobre o qual o modelo de universidade pública brasileira tradicionalmente se apoia: a articulação indissociável entre pesquisa, ensino e extensão.
Além deste tripé clássico, a realidade da carreira acadêmica incorpora outras facetas essenciais. A gestão, embora muitas vezes vista como atividade-meio, consome horas significativas (em coordenações, chefias de departamento, comissões, etc.) e é fundamental para o funcionamento da instituição e dos projetos.
Mais recentemente, a inovação tem ganhado destaque, muitas vezes conectada à interação com o setor produtivo e a sociedade, seja no desenvolvimento de patentes, ou novas técnicas e produtos.
Poderíamos tentar traçar paralelos diretos entre cada esporte e cada faceta acadêmica – a precisão da esgrima na pesquisa, a resistência da natação no ensino, a adaptação da extensão, o foco na gestão e a superação na inovação.
No entanto, talvez seja mais produtivo e menos “forçado” buscar pontos de contato em termos mais gerais, que refletem a própria natureza multifacetada de ambos os campos de atuação.
Versatilidade e adaptabilidade
Tanto no pentatlo moderno quanto na carreira acadêmica, há a necessidade de ser competente em áreas distintas. Mais do que isso, a evolução natural de uma carreira traz situações novas, a exemplos dos cargos de gestão, o que exige adaptação.
Esta diversidade de habilidades acontece mesmo se considerarmos a área de especialização de um professor. Ao mesmo tempo que ele faz pesquisa de ponta em Física Quântica, por exemplo, precisa ministrar aulas introdutórias para calouros.
A capacidade de alternar entre diferentes modos de pensamento e ação é necessária e precisa ser cultivada.
Habilidades
A natureza múltipla do pentatlo e da atividade acadêmica exige o uso de diferentes habilidades. Para os professores, seus “músculos mentais” são habilidades cognitivas exercitadas de forma diferente em cada contexto. Por exemplo, a pesquisa pode requerer pensamento analítico profundo, enquanto a extensão pode exigir habilidades de comunicação e empatia.
Também cabe ressaltar que no esporte e na academia, a transferência de habilidades é limitada. Ser bom em hipismo não necessariamente ajuda na natação. Da mesma forma, excelência em pesquisa não garante habilidades de gestão administrativa na universidade.
Equilíbrio
Em ambos os casos, o sucesso depende de um bom desempenho em todas as áreas, não apenas em uma ou duas. A carreira nas universidades marcadas pelo tripé pesquisa-ensino-extensão não permitem que que um professor faça somente uma destas atividades. Embora a docência seja o elemento obrigatório, a pesquisa tende a ser valorizada e inclusive necessária em termos de avaliação do trabalho.
Como dizia Ferdinand Röhr, professor emérito da Universidade Federal de Pernambuco e ex-colega de departamento, “é preciso só fazer um pouquinho de cada coisa” para alcançar a nota necessária para progredir de um nível para outro.
Por outro lado, a busca de equilíbrio se esbarra na determinação de prioridades. Um pentatleta, junto a seu treinador, pode decidir focar o treinamento na modalidade na qual tem pior desempenho ou investir naquela que já lhe traz resultados. De forma análoga, um professor pode enfrentar dilemas entre se dedicar mais à pesquisa, em detrimento da qualidade de suas aulas.
Entra em cena o planejamento estratégico. Na periodização do treinamento desportivo ou nos planejamentos de atividade docente, tempo e recursos são divididos entre atividades tão diversas.
“Treinamento” contínuo
Atletas de alto desempenho e professores acadêmicos compartilham a necessidade de estar no topo, em suas respectivas áreas. Para se manterem competitivos, o constante aperfeiçoamento é necessário.
Não à toa, a carreira acadêmica contempla licenças-capacitação e estágios de pós-doutorado, além da participação em congressos e eventos científicos.
Resistência
Tanto o esporte como o trabalho acadêmico são exigentes, física e mentalmente.
A resiliência e as redes de apoio são necessárias, para evitar o burnout, assim como atletas se cuidam em relação ao overtraining.
Em conjunto, tanto o pentatlo moderno quanto a carreira acadêmica exigem uma notável capacidade de lidar com a diversidade e, muitas vezes, com a aparente incongruência entre suas diferentes demandas. Mas possivelmente, um pouco de sua graça seja justamente o desafio de dominar múltiplas perspectivas.
Em suma, tanto o pentatlo moderno quanto a carreira acadêmica na estrutura brasileira exigem a capacidade de lidar com a diversidade de tarefas e, por vezes, com a aparente incongruência entre suas diferentes demandas.
Mais do que simplesmente executar tarefas distintas, o desafio reside em integrar essas facetas, mantendo o alto desempenho em cada uma. Talvez seja justamente nessa complexidade e na busca por dominar múltiplas “modalidades” que residam o desafio e a graça de ambas as jornadas.
Finalmente, ressaltar que excelência e versatilidade no pentatlo moderno vem associado com a pernambucana Yane Marques. Medalhista de bronze nos Jogos Olímpicos de Londres 2012, Yane fez história ao conquistar a primeira (e única, até o momento) medalha olímpica do Brasil na modalidade, colocando o esporte em evidência em nosso país.

Foto: Valterci Santos/AGIF/cob.org.br Yane Marques, cerimônia da medalha, Londres 2012