Marcelo Sabbatini

Inteligência Artificial para educadores: perguntas e respostas (Parte 2)

Imagem: Michelle Tresemer / Tresemer

Publicado originalmente em IAEdPraxis: Caminhos Inteligentes para a Educação, em 11 de junho de 2025

Em um post anterior, abordamos perguntas frequentes que costumo receber através da participação do público durante as palestras, oficinas e cursos que ministro sobre IA na Educação.

Mas se na primeira parte tratamos de temas pedagógicos como fraude acadêmica, reconceituação das tarefas pedagógicas, perigos do uso ilimitado e adequação ao currículo, agora vamos tratar de questões mais relacionadas ao contexto educacional, em sentido mais amplo.

Formação docente e prática

Quem vai nos ensinar a usar bem? Ou precisamos nos “virar nos 30” na hora e descobrir como é que se faz?

Idealmente, a formação continuada deveria ser oferecida pelas Secretarias de Educação e/ou pela própria escola, com foco em práticas pedagógicas significativas e não apenas no uso instrumental da ferramenta. Essa formação também deveria ser contínua, pois a tecnologia evolui rapidamente e os âmbitos de aplicação atuais.

No mundo real, muitos professores acabam buscando conhecimento por conta própria (“se virando”) ou através de redes de colaboração com colegas. Ou, o que é mais temerário, acabam em cursos online promovidos por influenciadores que têm pouco ou nenhum conhecimento sobre Educação. É preciso que os educadores reivindiquem formação de qualidade, contextualizada e prática.

Como lidar com a resistência de colegas mais “antigos” que não querem incorporar novas tecnologias?

Com empatia, diálogo e foco nos benefícios. Muitas vezes, a resistência vem do receio do desconhecido, de experiências negativas anteriores ou da sensação de sobrecarga. Neste ponto, a IA não é tão diferente das tecnologias educacionais anteriores, que colocaram em xeque o papel do professor.

Uma orientação é “começar pequeno”, através de usos simples que respondam a problemas reais. Por exemplo, sugerir dinâmicas de discussão e debate em sala.

Além disso, o compartilhamento dos “casos de sucesso”, com exemplos concretos de como a tecnologia atingiu algum objetivo – desde facilitar a vida do professor a engajar alunos.

De qualquer forma, também é importante respeitar os tempos individuais. Nem todos irão experimentar a tecnologia no mesmo ritmo. É preciso valorizar a experiência idiossincrática de cada um.

Em todas estas situações é importante ressaltar o foco no pedagógico, isto é, que a tecnologia esteja a serviço de objetivos educacionais e não somente como uma promessa de inovação.

Existe algum treinamento específico que nós, professores de escolas públicas, podemos fazer para aprender a usar IA em sala de aula? Algo gratuito ou de baixo custo?

Sim, existem opções, embora possa exigir alguma busca e seleção.

Minha Secretaria de Educação não nos deu nenhuma diretriz sobre o uso de IA. Como outros municípios e Estados estão lidando com isso? Existem políticas públicas sendo desenvolvidas?

A situação é heterogênea no Brasil. Muitas Secretarias ainda estão em fase de estudo ou observação, ou simplesmente desconhecem o tema. Algumas poucas começaram a emitir orientações iniciais, geralmente focadas em uso ético e privacidade de dados.

É importante acompanhar as iniciativas do Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação) e da UNDIME (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação), que podem indicar tendências ou compartilhar experiências entre os estados e municípios.

De toda forma, esta lacuna de diretrizes oficiais é um desafio, mas também abre espaço para as escolas, com cautela e bom senso pedagógico, iniciarem suas próprias discussões e experimentações responsáveis.

Menos discurso e mais prática. Alguém pode me mostrar ferramentas específicas, de preferência gratuitas ou bem baratas, e me dar ideias de atividades simples que eu possa tentar amanhã com meus alunos?

Na atualidade, todos os agentes conversacionais baseados em IA adotam o modelo freemium, com recursos grátis (free) limitados em relação à capacidade ou extensão de uso, frente às assinaturas pagas. Como ferramentas de uso genérico, podem ser utilizados em diversos âmbitos, como o planejamento didático, a elaboração de guias de estudo, a elaboração de materiais acessíveis e mesmo a avaliação.

Este mesmo modelo econômico pode ser encontrado em plataformas de uso especializado, seja para geração de aulas e de material didático, como para avaliação (considerando o caso de plataformas de uso amplo, que reúnem estas outras funcionalidades). Neste último tópico, encontramos ferramentas tanto para a realização de correções e atribuições de nota, quanto para a criação de provas e testes.

Em relação às atividades simples, seria interessante que os repositórios de Recursos Educacionais Abertos (REAs) passassem a incorporar estes usos pedagógicos, tanto em prompts como em planos de aula.

Enquanto isso não ocorre, há professores que de forma altruísta compartilham suas experimentações com a IA, publicando prompts e atividades. Mas para exemplificar como é possível “começar pequeno”, as seguintes atividades se concentram no processo, demandando mediação pedagógica do professor:

Trabalho docente

Dizem muito que a IA pode ajudar com tarefas repetitivas… Mas e o tempo pra aprender a usar a ferramenta? Para checar se a IA não está dando informação errada para o aluno? No final das contas, ela vai nos dar mais tempo livre ou será mais uma coisa para eu me preocupar?

São preocupações pertinentes. Especialmente a curva de aprendizado inicial, que não inclui apenas o uso instrumental, mas também uma compreensão do que a IA pode ou não fazer vai demandar esforço.

É uma equação complexa. Sim, há uma curva de aprendizado inicial que demanda tempo e esforço. Sim, é absolutamente necessário verificar as informações geradas pela IA, pois elas podem ser imprecisas, incompletas ou enviesadas (“alucinações” da IA).

O potencial de economia de tempo existe a médio e longo prazo, especialmente em tarefas como: gerar primeiras versões de planos de aula, criar bancos de questões variadas e rubricas de avaliação, diferenciar materiais, redigir comunicados, analisar dados de desempenho (se disponíveis e integrados).

No início, pode parecer uma tarefa a mais. A chave é começar pequeno, focando em uma ou duas tarefas onde a IA possa trazer um benefício claro e mensurável. Com a prática, o uso se torna mais rápido e eficiente.

Mas a responsabilidade pela verificação e pelo uso pedagógico adequado sempre será do professor, o que demanda tempo para a curadoria e planejamento.

Existe algum risco de a IA substituir o papel do professor? Qual a realidade dos discursos que dizem que ela vai acabar com os empregos?

Neste debate, que acompanho mesmo antes do boom ocasionado pelo lançamento do ChatGPT, o discurso se repete: professores não serão substituídos, pois possuem qualidades humanas que a máquina não alcança. Diante de algumas tarefas que a IA poderá assumir, seu papel será o de mediar o conhecimento, de motivar e inspirar. Somente um professor é capaz de entender o contexto individual do aluno e de gerir dinâmicas de grupo complexas, etc., etc.

Entretanto, existe uma possibilidade muito concreta de substituição. Inclusive, há uma ideologia associada à robótica e agora à Inteligência Artificial e que em uma sociedade capitalista também encontra uma motivação pragmática: redução de custos.

Dessa forma, é previsível que a IA cause desemprego estrutural na profissão docente, com a substituição de tarefas como criação de material didático e avaliação. Os que ficarem concentrarão responsabilidades, compensando aqueles que forem demitidos.

Por isso é tão importante que a classe docente entenda os impactos e possibilidades da IA. Como qualquer tecnologia, ela não é autônoma e nem inevitável. Sua inserção na sociedade precisa ser debatida e regulada.

Acesso

Como eu aplico isso numa sala repleta alunos, onde metade não tem nem computador ou internet de qualidade em casa? A IA não vai acabar aumentando ainda mais a diferença entre quem tem acesso e quem não tem?

A inclusão/exclusão digital é um aspecto que não pode ser ignorado, embora não seja único ao uso da IA. A pandemia da covid-19 mostrou a disparidade de acesso às redes e à tecnologia digital. É importante dizer que diante de contextos com acesso desigual, precisamos pensar em usos que não dependam do acesso individual do aluno fora da escola. Por exemplo, através do uso coletivo em sala de aula com demonstrações ou atividades em grupo com um único dispositivo.

Então, sim, há um risco real de aprofundar a desigualdade; o acesso é um dos principais desafios éticos identificados pelas recomendações éticas da Unesco. Por isso, precisamos de políticas públicas que busquem garantir uma infraestrutura mínima não somente de acesso, mas de utilização com sentido pedagógico bem definido.

Todas estas ferramentas de IA…são de graça? Ou vai ser mais um custo que a escola (que já vive no limite) ou até a gente, professor, vai ter que bancar?**

Na atualidade, as ferramentas de IA mais conhecidas dispõem de uso gratuito, ainda que não sejam através dos modelos mais avançados e capazes. Para algumas, as limitações de uso podem vir no número de consultas realizadas em certo período de tempo.

Contudo, as versões mais robustas, com mais recursos, ou plataformas educacionais integradas geralmente têm um custo. A viabilidade financeira é um desafio real.

Idealmente, o financiamento para ferramentas educacionais deveria vir de verbas públicas (municipais, estaduais, federais) destinadas à inovação e tecnologia na Educação, e não do orçamento já apertado da escola ou do bolso do professor.

Assim, a mobilização da categoria e da comunidade escolar é importante para pleitear esses recursos.

Os alunos estão falando muito sobre o ChatGPT. Existe alguma versão gratuita específica para educação que possamos usar oficialmente na escola?

Até o momento, a OpenAI (criadora do ChatGPT) não lançou uma versão para uso em escolas K-12; nos Estados Unidos há a versão For Education, em parceria com instituições de Ensino Superior, mas nada disso chegou por aqui. Dessa forma, o uso mais comum é através de contas pessoais e mesmo do compartilhamento de senhas de contas premium.

De qualquer forma, é preciso considerar que, segundo a política de uso da empresa, a idade mínima de 13 anos. Seu uso demanda consentimento parental, para menores dessa idade.

Segurança, privacidade e vieses

Quem garante que os dados dos meus alunos (o que eles escrevem, perguntam, as dificuldades deles) vão estar seguros usando essas plataformas? Para onde vão essas informações? Dá para confiar?

Não, não podemos confiar totalmente, especialmente em nos chatbots de uso geral. A garantia de segurança e privacidade varia entre as plataformas.

Em ferramentas gratuitas, voltadas para o usuário individual, geralmente os termos de uso indicam que as interações podem ser usadas para treinar os modelos de IA. Com isso, os dados enviados (perguntas, textos) não são confidenciais e podem ser visualizados por revisores humanos ou processados pelos sistemas da empresa.

Plataformas pagas, de uso institucional, projetadas para educação e adquiridas por instituições costumam ter acordos de privacidade mais robustos (em conformidade com leis de proteção de dados como a LGPD no Brasil ou a GDPR na Europa), limitando o uso dos dados dos alunos.

Então que cuidados devo tomar?

É preciso ler as políticas de privacidade e os termos de uso de qualquer ferramenta antes de utilizá-la com os alunos. Entenda como os dados são coletados, usados e armazenados.

Mas há uma regra clara: a anonimização. Evite inserir qualquer informação pessoalmente identificável (nomes completos, CPFs, endereços, dados sensíveis) ou informações confidenciais da escola ou dos alunos. Instrua os estudantes a fazerem o mesmo. Use pseudônimos ou generalize as informações se precisar inserir exemplos.

Priorize o uso de ferramentas integradas às contas oficiais da escola, como as plataformas mencionadas acima, pois elas geralmente oferecem melhores proteções de dados sob os contratos institucionais. Verifique as políticas da sua rede de ensino.

Finalmente, é preciso supervisão do uso da IA pelos alunos e promover a sua conscientização, problematizando questões como privacidade online e os riscos de compartilhar informações pessoais.

Quais cuidados devemos ter para evitar que a IA reproduza preconceitos ou discriminações já existentes na sociedade?

Este é um ponto controverso, pois as IAs são treinadas com dados do mundo real, produzidos por humanos e que, por consequência, contêm vieses e preconceitos. Porém, como usuários somente podemos interferir muito indiretamente neste treinamento, ao sinalizar sua ocorrência.

Mas para isso, o primeiro passo é estar ciente de que a IA não é neutra. Seus resultados podem refletir e até amplificar estereótipos de gênero, raça, cultura.

A seguinte questão é como lidar com as ocorrências de vieses. Neste sentido, a identificação de vieses pode se converter em uma atividade de análise crítica e em uma oportunidade de aprendizado. Por exemplo, peça aos alunos para analisarem as respostas da IA: “Que ponto de vista está faltando?”, “Essa descrição reforça algum estereótipo?”, “A linguagem usada é inclusiva?”.

O passo final é a recomendação de nunca usar o conteúdo gerado pela IA diretamente sem revisão crítica. Em caso de dúvida, compare com fontes diversas e confiáveis.


Concluímos (por enquanto) nossa coleção de perguntas frequentes sobre o uso da IA na Educação. Tratamos desde as preocupações com a fraude acadêmica, passando pela aprendizagem e chegando a questões mais amplas como a disponibilidade da tecnologia e as repercussões sobre o trabalho docente.

Mas por que não fazer uma terceira parte? Depende também de você: envie sua pergunta, para continuarmos este debate.

Sair da versão mobile