Marcelo Sabbatini

O mito da tecnologia neutra revelado por uma faca

Vivemos cercados de tecnologias, que nos impactam profundamente. Mas quando vamos discuti-las é frequente escutarmos o argumento do uso. Vale para as redes sociais, para o celular e, mais recentemente, para a Inteligência Artificial. “A tecnologia não é boa nem má, depende do uso” e **“é só um instrumento” são frases que aparecem em reportagens, em palestras, nas redes sociais, nos discursos oficiais.

O argumento é confortável por dois motivos. Primeiro, porque nos poupa de discutir a tecnologia em si, bastaria disciplinar quem a utiliza. Segundo, porque parece equilibrado, nem tecnofobia, nem entusiasmo ingênuo.

Meu objetivo aqui é mostrar por que essa ideia, embora razoável à primeira vista, é insuficiente. É uma crítica trazida pela Filosofia da Tecnologia, necessária para entendermos por que as tecnologias são (ou melhor, na maioria das vezes não são) adotadas na Educação.

Mas por lidar com conceitos um tanto abstratos, o “mito da tecnologia neutra” frequentemente é incompreendido. Para explicá-lo, vou utilizar um exemplo cotidiano, uma faca.

O que é uma faca? (numa visão de artefato)

Na visão da neutralidade e parafraseando a frase de abertura, “uma faca não é boa, nem má, depende de quem a usa”. Ou seja, uma frase que é fácil de aceitar. E que coloca toda a responsabilidade, por assim dizer, nas pessoas e deixa a tecnologia livre de qualquer julgamento.

Júlio César diria que estão usando a faca para o mal. Para sermos precisos, ele foi morto a punhais (pugio), um artefato que possui uma intencionalidade específica e, por isso mesmo, um nome diferenciado. Pintura de Vincenzo Camuccini (1804-1805).

Mas será mesmo? E aí podemos nos perguntar, o que é uma faca? O que define uma faca e o que a distingue de qualquer outro objeto tecnológico?

De forma simples, toda faca resolve um problema tecnológico, que é dividir a matéria. Ela faz isso pela concentração extrema de força, numa única linha. Antes de qualquer uso, esta intencionalidade fundamental está embutida nela. Não é uma opinião discutível, mas a condição necessária para que um objeto seja uma faca. Se ela não separar matéria, é outra coisa.

Dessa definição, emerge uma característica que serve como critério de avaliação, que é a afiação. Uma faca é considerada “boa” na medida em que ela corta mais ou menos facilmente.

Nesse ponto, alguém poderia argumentar, “mas e os talheres para crianças? Eles não cortam!”. Mas justamente, estas facas infantis são projetadas e fabricadas diante desse critério de “afiação”. Só que aqui ele aparece com valência invertida. Isto é, o critério continua operando, apenas troca de sinal (não separar matéria, apenas afastar).

Assim, o critério afiação tem como consequência outro valor imediato, que é o “perigo”. O seu dedão, um centímetro fora de posição, e lá se vai a ponta dele, enquanto se corta uma cenoura (experiência recente e ainda não totalmente recuperada, deste autor que lhes escreve).

Tomando então este acidente como referência, reparem que ele não aconteceu num mau uso, mas no uso mais correto possível. Se o perigo aparece mesmo quando tudo é feito como se deve, é porque ele não depende da intenção de quem usa, mas pertence à própria constituição da faca.

Com este exemplo, chegamos à conclusão de que a tecnologia “faca” já parte de um uso (separar matéria), condicionado por um valor (afiação), independentemente da forma mais específica como ela seja utilizada. Portanto, uma faca não é neutra. Se ela fosse, não ficaria guardada e protegida, fora do alcance de crianças.

Para honestidade do argumento, este valor intrínseco não é moral, como a frase nos induz a pensar (ser “boa”, ser “má”). A ideia por trás da não neutralidade da tecnologia é que o valor embutido induz a certos usos e impossibilita outros. Ninguém dorme em cima de uma faca, por exemplo (com a grande exceção dos faquires, que o fazem justamente por ser uma exceção). O artefato não limita entre todos os seus usos plausíveis, mas determina quais são possíveis.

Então sim, a frase inicial tem certa razão, pois nem sempre uma tecnologia determina sua finalidade. E isto é importante para evitarmos o determinismo tecnológico, que é assunto para outra conversa.

Dito isso, o importante que este entendimento da tecnologia “só” como um instrumento “inocente”, que pode ser utilizado de uma ou outra forma, tem se revelado insuficiente para compreendermos qual é o seu papel e seu impacto reais.

Como superar esta dificuldade?

O que é uma faca? (numa visão sistêmica)

Para esta compreensão mais profunda, existe uma abordagem alternativa, que é compreender uma tecnologia como um sistema sociotécnico. Ou seja, não estamos olhando somente para o artefato (a faca em si), mas para a energia utilizada, os usuários, seus objetivos e a cultura técnica incorporada. Para termos de nossa conversa sobre neutralidade, este último elemento é o que nos interessa.

Voltando ao exemplo da faca, esta cultura técnica incorporada são os conhecimentos e práticas que os usuários (também chamados agentes) estabeleceram com esta tecnologia. E podemos separá-la em três componentes.

O primeiro seria o representacional e diz respeito a como esta tecnologia é compreendida; em nosso exemplo, seria o que se sabe sobre metal, fio, ângulo, dureza.

O segundo seria o operativo, relacionado ao como se usa. Em termos “facais”, seria o como se afia, como se segura, como se pica uma cebola (fazer a mão de “garra”) ou se assassina um César (girar a faca, depois de furar). A diferença entre alinhar o fio e amolar, e quando realizar cada uma destas operações.

E o terceiro e último seria o valorativo, que relaciona o critério de avaliação com seu uso. Exemplificando, o que é uma boa faca e para quem? Logicamente, não damos uma faca de açougueiro para uma criança e vice-versa.

Pois bem, todos estes elementos são culturais, mas segundo a abordagem sociotécnica, eles estão incorporados. Dito de outra forma, eles já estão no objeto, antes de qualquer usuário aparecer. Um instrumento de corte carrega consigo milênios de conhecimento metalúrgico, que nós usuários não precisamos conhecer. O corte funciona, quer saibamos como ou não.

Além disso, temos as atribuições estéticas e culturais, que explicam por que temos uma variedade tão grande de facas para um mesmo objetivo. Exemplificando: embora a afiação seja o critério, o formato da lâmina é decisão cultural. A faca santoku japonesa, a chef francesa e a de churrasco resolvem o mesmo problema de separação da matéria, com geometrias distintas. As tradições culinárias que as produziram cortam coisas diferentes, de modos diferentes, com gestos diferentes. Nenhuma é mais faca que a outra.

Faca chef, faca santoku e suas diferenças sutis. A santoku possui uma linha mais reta, que facilita os cortes de “empurrar para a frente” e “de cima para baixo”, não precisando do “balanço” necessário na ferramenta ocidental. Os sulcos ajudam a evitar que alimentos pegajosos grudem na lâmina.

Assim, se fosse neutra, a faca seria só lâmina. Mas ela chega ao usuário já formatada por decisões estéticas, por convenções de mesa, por marcações de status. O usuário adere a essas decisões sem escolhê-las e quase sempre sem notá-las.

Faca de churrasco. Por melhores que sejam suas características objetivas, a lâmina curva e o acabamento rústico remetem a uma imagem que faz as pessoas pensarem “uau, este churrasqueiro leva a coisa a sério”.

A existência desse aspecto cultural traz uma “flexibilidade interpretativa” que se relaciona com a finalidade da tecnologia. Isto é, um grupo social pode fazer certo uso de um determinado artefato, que seria mal interpretado em outro. A etiqueta no uso dos talheres é um exemplo. “Não é tudo faca, não corta tudo igual?”. Não, usar o instrumento “certo” é marcador social.

E isto nos afasta ainda mais deste mito da tecnologia neutra, pois sempre precisamos nos perguntar: que problema esse artefato foi feito para resolver, que critério de qualidade ele instala, e que usos ele torna fáceis, difíceis ou impossíveis?

Das facas para a tecnologia educacional

O que significa toda esta discussão para a Educação? Ela explica por que a adoção de uma tecnologia educacional nunca é uma decisão somente de como o professor vai utilizá-la. Qualquer tecnologia educacional chega pronta. Além dos valores relacionados com sua própria definição, carrega decisões pedagógicas, estéticas e comerciais que o professor não formulou e que estão nesta cultura técnica incorporada.

Um exemplo, o projetor. Embora alguém possa argumentar que ele pode ser usado tanto para uma aula expositiva maçante, como para uma atividade lúdica e cooperativa (sendo neutro e dependendo do uso), esta abordagem sociotécnica diz algo diferente.

A começar pelo valor intrínseco, que é o de centralizar a exposição de algum conteúdo, para visualização coletiva. Com esta característica, o projetor determina de antemão quais são os usos possíveis e exclui outros. Em uma sala preparada para a projeção, a disposição em círculo para discussões, o trabalho simultâneo em grupos e a escuta sem apoio visual são dificultados ou impossibilitados.

Por sua vez, a cultura incorporada traz (ou impõe) os hábitos e práticas de utilização. No plano representacional, o uso mais frequente e com o qual rapidamente associamos o projetor se relaciona com alguém que fala de frente sobre um conteúdo que existe previamente, em forma de slide. A projeção pressupõe que o saber já está pronto, antes da aula começar.

E não é à toa, pois o projetor é herdeiro de uma linha de tecnologias que colocam a centralidade no professor e no método da exposição. Quadro negro, slide fotográfico, retroprojetor, quadro branco, lousa virtual. A cultura escolar nos acostumou a esse tipo de aula, é o que esperamos quando nos deparamos com um projetor.

 

Este não é um projetor normal. É uma lousa virtual, que nunca chegou a ser utilizada como tal. Em pouco tempo as pilhas para as canetas se esgotaram, elas se perderam e os professores perceberam que quase nado acrescentavam a uma aula. Hoje, mais de uma década depois, continuam funcionando, mas sem qualquer tipo de interação.

No plano operativo, é preciso um operador do equipamento, e nesse ponto aparece o meme do professor que tem doutorado mas não consegue colocar um datashow para funcionar.

@nadsonglO professor com 10 doutorados e no sabe ligar projetor slide #humor #humoruniversitario #comedia♬ original sound – Nadson

Finalmente, o conteúdo valorativo associa o uso de projeção com uma docência mais “preparada”, mais “moderna”, mais “séria”. Quem escreve no quadro é visto como um improvisador ou como um dinossauro tecnológico.

Nada disso quer dizer que o projetor seja ruim, nem que devamos bani-lo. Significa que não é um instrumento neutro, uma mera ferramenta à espera de uma intenção pedagógica. Ele chega à sala junto com uma arquitetura, de um roteiro esperado de uso e de um julgamento implícito sobre o que é uma “boa aula”. Um professor pode contestar tudo isso, claro, mas vai precisar se esforçar. E esse esforço para contrariar os valores embutidos num artefato tecnológico é justamente a medida de sua não neutralidade.

Logo, podemos aplicar este mesmo exercício para outras tecnologias presentes no campo educacional. O Whatsapp, com sua instantaneidade e onipresença, estabelece um uso tóxico. O Google Classroom é totalmente centrado na entrega de conteúdo; não foi projetado por educadores, foi uma adaptação das tecnologias dominadas pela empresa que o comercializa, como vemos na análise a seguir:

Slide da aula “Princípios de pesquisa em tecnologia educacional” da disciplina “EMT 918 – Tecnologia e Sociedade” do PPGEdumatec-UFPE. Elaboração do autor.

E a Inteligência Artificial, mencionada no início? Se ela não é neutra, porque nenhuma tecnologia é neutra, quais são os valores intrínsecos e a cultura incorporada que ela carrega? Como o tema é amplo e já vamos nos alongando, vou deixar para um futuro texto. Aguardem.

Concluindo, a frase “depende do uso” não é exatamente falsa, ela é curta demais. Ela começa a conversa no ponto em que as decisões mais importantes já foram tomadas por outras pessoas, em outro lugar, antes de a tecnologia chegar às nossas mãos.

Recusar o mito da neutralidade significa reconhecer que ao utilizar uma tecnologia, estamos aderindo a um conjunto de valores pré-estabelecidos. E que é melhor fazer isso sabendo quais são.

Para saber mais

Os conceitos que utilizei aqui como “sistema sociotécnico” e “cultura técnica incorporada” foram trabalhados por meu coorientador de doutorado, o espanhol Miguel Ángel Quintanilla. Um filósofo da tecnologia, teve um texto bem esclarecedor e cessível para os não filósofos traduzido e publicado em nosso país. Nele, utiliza o exemplo da máquina de lavar roupas, ainda que não tão detalhado como fizemos com a faca. O acesso é aberto e segue a referência:

QUINTANILLA, Miguel Angel. Técnica e cultura. Teorema, v. XVII, n. 3, p. 49-69, 1998. (Tradução de Gilmar Evandro Szczepanik, publicada na Guairacá Revista de Tecnologia). Disponível em: https://revistas.unicentro.br/index.php/guaiaraca/article/view/4818

Sair da versão mobile